A Stellantis convocou um recall global de aproximadamente 700 mil veículos híbridos leves de 48V das marcas Peugeot, Citroën, Opel, Fiat e Jeep devido a risco de incêndio no cofre do motor. A falha, identificada pela autoridade alemã KBA, está no projeto de integração do sistema híbrido, que pode superaquecer sob condições específicas. A correção não exige a troca da bateria na maioria dos casos.
Por que 700 mil híbridos Stellantis correm risco de incêndio? Entenda a falha que não tem uma peça culpada
A raiz do problema não é um componente com defeito de fábrica, mas sim uma falha de projeto de integração, ou seja, a forma como os componentes do sistema híbrido leve de 48V foram arranjados no cofre do motor. A KBA, órgão regulador alemão, detalhou que a proximidade entre chicotes elétricos de potência, o inversor e fontes de calor do motor a combustão, agravada pelo espaço compacto da arquitetura, pode gerar superaquecimento localizado em condições de carga intensa, vibração ou temperatura elevada. Esse calor excessivo pode então propagar o fogo para materiais adjacentes.
O que a KBA exigiu como correção?
A correção determinada pela KBA e adotada pela Stellantis é cirúrgica e, na maioria dos casos, não envolve a substituição da bateria de íons de lítio. O reparo consiste em duas etapas principais:
- Instalação de blindagens térmicas adicionais: para isolar os componentes elétricos das fontes de calor do motor.
- Atualização de software de gerenciamento térmico: para limitar a corrente elétrica em situações críticas, evitando o superaquecimento.
Por que o sistema 48V é mais crítico que outros?
Diferente de sistemas híbridos de alta tensão (como os 400V), que desde o projeto são pensados com espaçamentos e isolamentos específicos, o sistema híbrido leve de 48V foi, em muitos casos, adaptado a plataformas originalmente concebidas apenas para motores a combustão. Essa adaptação forçada criou um "ponto cego" de segurança: a compactação para encaixar o motor-gerador, chicotes e inversor em um espaço que não foi projetado para isso aumentou o risco de contato entre componentes elétricos e fontes de calor, como o escapamento.
Quais modelos estão na lista de risco?
Os modelos confirmados na Europa incluem versões híbridas leves (Hybrid 48V ou MHEV) dos seguintes veículos, produzidos entre 2023 e 2026:
- Peugeot: 3008, 5008, 508, 308
- Citroën: C5 Aircross, C4, C4 X
- Opel: Mokka, Grandland, Astra
- Fiat: 500X, 600, Tipo
- Jeep: Avenger, Renegade
E no Brasil, quais carros podem ser afetados?
A lista oficial brasileira depende de confirmação da Senacon, mas é essencial que proprietários fiquem atentos. Modelos como Fiat Pulse e Fastback Hybrid (produzidos em Goiana, PE, com motor 1.0 T3 e sistema 48V) e Jeep Renegade e Compass em suas versões híbridas leves estão na rota de possível convocação. A recomendação é consultar o chassi nos sites oficiais das marcas ou no portal de recalls do governo.
Cronograma do recall e situação brasileira
O recall foi anunciado globalmente em junho de 2026, após a KBA classificar o defeito como sistêmico. No Brasil, a Senacon deve publicar a convocação nas semanas seguintes à divulgação europeia. O processo é gratuito e obrigatório, independentemente de o veículo estar na garantia.
O que fazer se seu carro estiver na lista?
Se você possui um desses modelos, siga este passo a passo imediatamente:
- Consulte o chassi (VIN) no site da montadora (fiat.com.br, jeep.com.br, etc.) ou no portal de recalls do governo.
- Agende o reparo em uma concessionária autorizada. O procedimento é gratuito.
- Tome precauções até o reparo: estacione em local aberto e fique atento a odores de queimado, fumaça ou luzes de advertência no painel (bateria, temperatura ou motor).
- Não ignore os sinais: se notar algo anormal, evite dirigir e solicite reboque à concessionária.
Impacto na compra de veículo usado
Ao comprar um carro seminovo, é obrigatório verificar se há recall pendente. Um veículo com campanha de recall não realizada pode ter restrições de licenciamento e até mesmo cobertura de seguro negada em caso de sinistro relacionado ao defeito.
O contexto global dos recalls de eletrificados
O caso da Stellantis não é isolado, mas é o maior em volume de híbridos leves. Recalls de veículos eletrificados se tornaram mais frequentes entre 2024 e 2026, com campanhas de Hyundai/Kia (incêndios em baterias), Ford (cabos de alta tensão) e BMW (software térmico). Estudos da NHTSA (Administração Nacional de Segurança no Tráfego Rodoviário dos EUA) mostram que veículos eletrificados não pegam fogo com mais frequência que os a combustão, mas os incêndios de bateria apresentam reignição e temperaturas extremas, exigindo protocolos especiais de combate.
O custo estimado deste recall para a Stellantis é significativo, considerando peças, mão de obra e logística. O impacto já força a aceleração da plataforma nativa STLA Small, para evitar que futuros eletrificados dependam de adaptações em projetos de motores a combustão.



