O Primeiro Carro a Superar 100 km/h Era Elétrico – e Isso Foi em 1899
No final do século XIX, médicos e cientistas debatiam se o corpo humano suportaria velocidades acima de 100 km/h. Camille Jenatzy, engenheiro belga apelidado de "Diabo Vermelho", respondeu na prática. Pilotando o La Jamais Contente ("A Nunca Satisfeita") no Parc agricole d'Achères, perto de Paris, ele registrou 105,88 km/h no quilômetro lançado. O feito foi oficializado pelo Automóvel Clube da França e é reconhecido pela FIA como o primeiro recorde terrestre a superar a marca dos 100 km/h.
A "Guerra de Recordes" entre Elétricos
O recorde de Jenatzy não foi isolado, mas foi o auge de uma rivalidade com o conde Gaston de Chasseloup-Laubat. Ambos usavam carros elétricos e trocaram a liderança seis vezes entre 1898 e 1899, conforme os registros históricos da FIA:
- 18/12/1898 – Chasseloup-Laubat (Jeantaud elétrico): 63,15 km/h
- 17/01/1899 – Jenatzy (Jenatzy elétrico): 66,66 km/h
- 17/01/1899 – Chasseloup-Laubat (Jeantaud carenado): 70,31 km/h
- 27/01/1899 – Jenatzy (Jenatzy elétrico): 80,35 km/h
- 04/03/1899 – Chasseloup-Laubat (Jeantaud carenado): 92,78 km/h
- 29/04/1899 – Jenatzy (La Jamais Contente): 105,88 km/h
Todos os seis primeiros recordes oficiais de velocidade terrestre foram obtidos com carros elétricos. O mito de que o primeiro recorde foi a gasolina está incorreto.
Quem Foi Camille Jenatzy?
Nascido em Bruxelas em 1868, Jenatzy era engenheiro civil e filho de um industrial da borracha. Ganhou o apelido "Le Diable Rouge" por sua barba ruiva e pilotagem agressiva. Ele fabricava táxis elétricos em Paris, e os recordes serviam como vitrine comercial. Mais tarde, venceu a Copa Gordon Bennett de 1903 pilotando um Mercedes a gasolina. Sua morte trágica em 1913, durante uma caçada nas Ardenas, é lendária: ao imitar o grunhido de um javali para pregar uma peça nos companheiros, um deles atirou e o feriu mortalmente. Jenatzy morreu dentro de um Mercedes, confirmando a profecia de que morreria num carro da marca.
Especificações Técnicas do La Jamais Contente
O veículo era uma verdadeira inovação para a época. Sua carroceria em forma de torpedo era feita de liga leve de alumínio, um dos primeiros usos de materiais leves para aerodinâmica. Dois motores elétricos Postel-Vinay de 25 kW cada (total de ~68 cv) acionavam as rodas traseiras. As baterias Fulmen de chumbo-ácido pesavam cerca de 1,5 tonelada, e os pneus eram Michelin fornecidos especialmente para alta velocidade. O piloto ficava em pé sobre a caixa de baterias, com o tronco exposto ao vento – a aerodinâmica ainda era intuitiva.
Por Que Um Elétrico?
Em 1899, motores a gasolina eram rudimentares, com vibração e falhas frequentes. Já os elétricos ofereciam torque instantâneo, aceleração linear e confiabilidade superior. Para tiros de velocidade, a autonomia limitada não era problema. Além disso, competiam de igual para igual com carros a vapor e a gasolina no mercado. O contexto histórico mostra que a eletrificação automotiva não é novidade: no final do século XIX, elétricos dominavam recordes urbanos de aceleração.
Legado e Recordes Posteriores
Após o feito de Jenatzy, a barreira dos 100 km/h logo foi superada por carros a vapor (1902, Léon Serpollet a 120,80 km/h) e a gasolina (1902, Vanderbilt a ~122 km/h). O motor a combustão interna assumiu a dianteira por um século, mas o espírito de Jenatzy permaneceu. Em 2016, o Venturi Buckeye Bullet 3 atingiu 549 km/h, quebrando recordes elétricos modernos. O La Jamais Contente está preservado no Musée national de la Voiture, em Compiègne, França.
Mitos e Curiosidades
Médicos da época alertavam que o corpo humano colapsaria acima de 100 km/h – Jenatzy desmentiu. Ao contrário da crença popular, o nome do carro não homenageia a esposa do piloto, mas sim sua insaciabilidade por velocidade. O rival Chasseloup-Laubat foi o primeiro a usar carenagem aerodinâmica. A liga leve de alumínio, antecipação da obsessão por materiais leves, foi um dos muitos recursos inovadores do La Jamais Contente.



