Em julho de 1979, a Fiat lançou em Betim (MG) o Fiat 147 a álcool, o primeiro carro movido exclusivamente a etanol produzido em série no mundo. Por trás desse marco, estava uma década de pesquisa do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e do engenheiro Urbano Stumpf, que desenvolveram a tecnologia e a compartilharam com todas as montadoras. A Fiat foi a primeira a industrializá-la graças à sua nova fábrica e capacidade de resposta rápida.
Como o CTA e Urbano Stumpf Viabilizaram o Motor a Álcool
O verdadeiro “pai do motor a álcool” é o engenheiro Urbano Ernesto Stumpf (1916–1998). Formado pelo ITA e pesquisador do CTA desde 1950, sua equipe converteu um Fusca para rodar exclusivamente com etanol em 1975. Após mais de 200.000 km de testes, em 1978 Stumpf apresentou o carro ao presidente Geisel, que ordenou a aceleração do programa.
Tecnologia Compartilhada e Industrialização
O CTA disponibilizou gratuitamente as especificações de adaptação para todas as montadoras do Brasil. A Fiat, com sua fábrica nova em Betim, conseguiu adaptar a linha de produção em tempo recorde. Antes do lançamento, cerca de 300 veículos oficiais do governo já rodavam com etanol, validando a durabilidade do sistema.
- Data de lançamento: julho de 1979.
- Motor: 1.297 cm³ derivado do Fiat 127, com adaptações específicas.
- Taxa de compressão: elevada para aproveitar a alta octanagem do etanol.
- Relação estequiométrica: menor que a necessária para a gasolina, refletindo as propriedades do etanol.
Desafios Técnicos Superados na Adaptação
O etanol apresentou três grandes desafios que exigiram soluções de engenharia inéditas para a época.
Corrosão e Materiais
O etanol hidratado (95% álcool, 5% água) ataca metais como zinco e alumínio, além de borrachas naturais. A solução foi usar tanque de aço fosfatizado, linhas de nylon ou aço inox, e mangueiras de viton ou neoprene. O carburador recebeu jatos maiores e proteção contra corrosão com peças em zinco revestido e alumínio anodizado.
Partida a Frio
O etanol evapora mal abaixo de 15°C, dificultando a partida. A solução foi um tanquinho auxiliar de gasolina com cerca de 1 litro, acionado manualmente pelo afogador. O motorista puxava o afogador, que injetava gasolina no carburador; após o motor aquecer, a alimentação passava a álcool.
Mito comum: o tanquinho não era para economizar combustível — servia exclusivamente para viabilizar a partida a frio.
Lubrificação e Durabilidade
O etanol tem baixo poder lubrificante e queima em temperatura mais alta. Foram necessários óleos de motor específicos (mais detergentes, resistentes à diluição), válvulas de aço inoxidável e sedes de material fundido mais resistente. O motor preparado tinha durabilidade normal — a fama de “motor que derrete” veio de adaptações caseiras.
Desempenho e Consumo na Prática
O Fiat 147 a álcool entregava potência semelhante à versão a gasolina, com apenas uma pequena diferença no dia a dia. Seu consumo era maior que o da versão a gasolina, refletindo a menor densidade energética do etanol. Porém, o preço do etanol era significativamente mais barato, tornando o custo por quilômetro menor.
- Preço de lançamento: semelhante ao do modelo a gasolina, beneficiado por redução de IPI.
- Produção total (1979–1986): centenas de milhares de unidades.
- Apelido “cachacinha”: pelo cheiro adocicado do escapamento, característico do etanol.
Lições para Proprietários de Carros Antigos a Álcool
Quem mantém um carro original a álcool precisa de cuidados específicos. O tanque deve ser inspecionado regularmente, pois o etanol absorve água e pode formar ácidos orgânicos — recomenda‑se drenar o tanque se o carro ficar parado por mais de um mês. Use óleo 20W‑50 específico para álcool e troque a cada metade do intervalo recomendado para a versão a gasolina. Nunca abasteça o tanquinho com álcool — apenas gasolina pura.
Legado e Relevância Atual
O 147 a álcool provou que um biocombustível líquido poderia substituir a gasolina em escala nacional. A engenharia de materiais gerou a base para o motor flex (lançado em 2003) e para os híbridos flex modernos. O balanço energético do etanol de cana é muito favorável, sendo um dos melhores entre os biocombustíveis do mundo. E o Brasil nunca mais produziu gasolina pura: toda gasolina comercial contém mistura de etanol, herança direta do Proálcool.



